Fabrício Maurício | o BELO Povo ADORMECIDO
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o BELO Povo ADORMECIDO

o BELO Povo ADORMECIDO

Por Fabricio Mauricio em Textos e Crônicas 19 jun 2013
Era uma vez, no século passado, em um país riquíssimo em recursos naturais, um povo muito pobre e sofrido. As condições de vida eram extremamente precárias e os recursos se restringiam nas mãos de muito poucos.
– Se tivéssemos no mínimo o básico para viver decentemente poderíamos ser mais felizes…
Lamentou um cidadão comum. Outro veio:
– Se tivéssemos pelo menos uma maneira de nos divertir poderíamos aliviar toda esta carência…
Só tinham se passado dez anos da primeira guerra mundial e o mundo estava ainda traumatizado com tanta destruição. Nada reacendia aquele povo. O mundo parou sua evolução…
Um dia, quando este outro cidadão carpia suas terras, preparando o solo, para o plantio de seus alimentos, encontra um Tatu bola. O pequeno animal disse:
– Não se entristeça nobre Cidadão. A alegria virá muito em breve. Ainda este ano, vão criar uma forma de entretenimento que aliviará sobremaneira toda esta tristeza em que vive seu povo.
A profecia do Tatu Bola se concretizou. De repente surge um grupo de 13 governantes que revela ao povo um jeito de retomar a construção do mundo!
Assim nos idos de 1928 os governantes, buscando maquiar toda carência deste povo, inventaram um tal torneio mundial que alegraria todo povo, e os fariam esquecer de todos os recursos básicos que faltavam.
De fato o povo ficou muito feliz! Assim decidiram dar uma festa para marcar o início deste torneio e convidaram toda população daquele local. Como convidados de honra, decidiram trazer os 13 governantes para a festa.
A festa era simples. Os recursos eram muito escassos. A maioria daquele povo sequer tinham o que comer ou vestir. Apesar disto, tinham que fazer algo de diferente para homenagear tão bondosos governantes. Reuniram os poucos utensílios que cada um tinha em suas casas e conseguiram somar doze pratos de cobre e doze colheres, e o restante eram cumbucas de madeira. Um deles se preocupou e logo se manifestou:
– Senhores, os governantes são 13, entretanto só conseguimos somar 12 pratos de cobre. O que faremos? Se um destes governantes tiver que comer na cumbuca de madeira como todo o povo poderá se ofender. E um governante ofendido…
Assim decidiram, após muita discussão não convidar o décimo terceiro governante. Argumentavam:
– Estes governantes, trabalham muito duro! Não tem tempo para nada. Se não forem avisados deste torneio, talvez nem fiquem sabendo. Vamos convidar só doze.
Assim foi feito.
Na abertura do torneio, estavam todos em volta de um campo aberto, assistindo alguns cidadãos correndo atrás de uma bola. Ao findar da partida, reuniram-se para confraternizar e se alimentar da pouca refeição que foram capazes de produzir. Os governantes ficaram comovidos com tamanha devoção deste povo apesar de tão pouco que recebiam em troca. Por um momento se sentiram tocados. Assim cada um tomou a palavra, e começaram a fazer algumas promessas:
– Vocês terão melhores alimentos de hoje em diante – disse o primeiro governante!
– E terão moradia digna – acrescentou o segundo.
– Terão direito à educação! – Proclamou o terceiro.
– A saúde será prioridade do governo – Afirmou o quarto em tom solene. O quinto:
– Terão direito a transportes. Vamos desbravar o mundo com mais mobilidade para todos!
E assim manifestaram-se onze governantes, cada qual fazendo uma promessa. Faltava apenas um mais esfomeado, que havia saído um pouco do evento, buscando uma melhor mistura num restaurante próximo, já que por ali não tinham muita comida, quando de repente chega o décimo terceiro governante, aquele que não havia sido convidado por falta de prato…
Estava com um olhar nebuloso e ameaçador. Sentindo-se ultrajado por não ter sido convidado para o evento de abertura do torneio, fez sua promessa:
– Vocês terão só isto! Vão jogar! Se divertir com este torneio tão somente. A vocês faltará para sempre boa alimentação, moradia digna, educação, transporte e saúde!
E se foi deixando sua maldição e todo povo em silêncio e muito preocupados com tudo isto. Quando de repente chega o décimo segundo governante. Ele então interveio…
– Não posso quebrar a promessa de nosso outro governante, afinal significaria quebra do decoro parlamentar. Mas posso aliviar. Não lhes faltará tudo isto para sempre. Passarão a falta destes recursos por 85 anos, até que nasça uma quarta geração de jovens que virão às ruas e protestarão em massa pacificamente por toda esta carência, conseguindo assim reverter tantos anos de omissão.
Depois daquele comício, todos os governantes e cidadãos comuns começaram a se dispersar desolados. Nem todos. Alguns poucos cidadãos de mais fibra, começaram a fazer buracos naquele campo aberto, destruíram a bola e decidiram guardar em segredo o assunto. Ambicionaram esconder de toda população aquela forma de divertimento, tentando com isto voltar à atenção de todos para aquilo que realmente importava, ou que pelo menos era o básico.
Não tiveram sucesso. A brincadeira era boa demais… E como a aquele povo faltava de tudo, era a única alternativa que tinham de aliviar a sua dor, diante de tanta falta e carência. Logo outro povoado próximo, limpou um pasto e abriu-se um grande descampado. Juntaram alguns trapos de couro curtido e fizeram uma bola. Retomaram a brincadeira, que logo foi ficando séria, e daí em diante, a cada quatro anos, reuniam o mundo em volta destes campos para esta diversão.
Era tão boa, que passavam os quatro anos se preparando para o torneio que quando terminava, as atenções se voltavam para a preparação do próximo e assim sucessivamente.
O país inteiro caiu neste transe… Fez-se valer a promessa do 13º governante. Todos os cidadãos só jogavam. Não tinham educação, saúde, moradia digna, transporte de qualidade… Os poucos de mais fartura jogavam comida fora. Tantos excessos do mundo novo fizeram com que muitos jogassem suas saúdes no lixo. Muitos de menos recursos viviam jogados pelos cantos. Transportes de má qualidade jogavam o povo por aí. Bêbados jogados pelas sarjetas. Mães que não podiam criar seus filhos jogavam estes nas lixeiras. A juventude vivia jogada pelos cantos. A falta de esperança dos cidadãos de bem estimulou estes a transformarem seu poder de voto em um jogo. Era como uma loteria. Jogavam com as cédulas de votação. Enquanto isto os governantes jogavam com suas vidas… Todos estavam dormentes, adormecidos…
A história do início deste torneio e das promessas não cumpridas dos governantes passava de geração em geração. O povo adormecido pelo jogo do poder, com tantas lacunas em suas vidas e suas casas, sem forças, esperando otimistas pela geração que viria salvar este mundo…
Algumas gerações, ainda criadas pelo espírito da guerra, tentaram em vão reverter este quadro. Mas não era com hostilidade, vandalismo e mais guerra que reparariam este quadro e esta maldita promessa.
Estas gerações criaram mais guerras, alguns de mais sorte voltavam com vida, amputados, machucados e sangrando. Outros nem voltavam. Sacrificavam suas próprias vidas. Tantos corpos jogados pelo campo que se transformara em um cenário de verdadeiras batalhas contribuíram para adormecer mais ainda o povo.
Até que completado os 85 anos da profecia, por volta do ano de 2013, eis que cresceu a quarta geração. No próximo ano o torneio seria em casa…
Vendo seus pais e seus filhos, jogados e jogando, entenderam que precisavam fazer algo. Mas precisavam fazer algo diferente. Não adiantava mais jogar pedras, atear fogo. Isto outras gerações já haviam feito e sem sucesso. Decidiram por um movimento pacifico, limpo, organizado, democratizado. Foi um verdadeiro marco na história mundial. Convenceram os governantes.O povo despertou. Os governantes despertaram. Acreditaram e entenderam. Não pararam de jogar, embora esta prática tenha deixado de ser o único foco. Com este movimento cuidaram de buscar soluções criativas para todas as demais causas deixadas de lado.

Morando dignamente, gozando de boa saúde e de forma muito educada se transportaram desta para outras gerações, e foram felizes como nunca!

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