Fabrício Maurício | Saudade do Peru de Pompeu
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Saudade do Peru de Pompeu

Saudade do Peru de Pompeu

Por Fabricio Mauricio em Gotas de Lágrimas 22 ago 2012
Quando eu vi aquele barulho (na verdade eu ouvi, mas vou tentar escrever aqui geralmente como falamos), era um flap flap flap, que eu não entendi nada! Olhei prá cima e vindo sei lá de onde, veio como um Condor frondoso e garboso o Fardadinho. Esse cara realmente era demais. Bichinho de uns vinte e cinco centímetros no máximo, da ponta de sua unha até o último topete de sua crista artesanal. Preto mas todo colorido. E as cores eram meio furta cor. Brilhoso. Galizesinho mais bonitinho que já vi. Já foi mais. Agora tava muito magrela.

Só não podia olhar direto em seus olhos! O Bicho tinha uma carranca de ruim de dar medo. Era nada… Era só valente demais. Mas continuando: Daí ele veio com as asas abertas e gralhando e pousou direto na cacunda do Peru (era o Osvaldo. O novato). E tome-lhe bicada no cocuruto! O bicho pulava e corria – glau glu glau glu glau glu… E o Fardadinho castigava! – Que recepção foi esta! Deve ter pensado o pobre Peru. Mas a farra do Fardadinho ia acabar… Sabe por quê?

Pompeu morreu. E com ele seus dois Perus. Era o Genésio e Aquele Outro você sabe… E ele e Dona Cotinha eram por demais agarrados com estes dois bichos. Dona Cotinha então nem se fala! Como era apegada com Aquele Outro principalmente!

Naquele tempo todo mundo se dava bem. Não tinha rinha. Conviviam todos, Seu Pompeu, Fardadinho, Genésio, Aquele Outro, Dona Cotinha que não saia de perto dele, e a Galinhada toda! Era uma harmonia só. Uma montoeira danada! Eram apegados sobremaneira estes bichos todos! Mas eram exclusivistas também. Não aceitavam mais ninguém no bando. Era só chegar algum bicho ou alguém diferente por perto que o Fardadinho logo fechava a cara e voava prá cima enquanto Genésio ficava ali paradão só olhando e Aquele Outro chegava a murchar.

Mas o trabalho era duro. Afinal tínhamos Pompeu com Aquele Outro, Genésio que sempre ia junto e o Fardadinho, para dar conta de Dona Cotinha e dezesseis Galizesinhas matreiras. O coração de Seu Pompeu não deu mais conta. Foi muito tempo neste ritmo. E olha que o ritmo do galo é foda!

Quando Ele foi Genésio e Aquele Outro foram na hora também. Eram muito apegados. Um foi exatamente no mesmo instante. O outro pouco tempo depois. Ficou duro ainda por um tempo, lutando para não perder a vida, pulsando e dando sinais vitais e logo desmoronou.

Na realidade todos ficaram muito abalados! Como fizeram falta. Só sobrou Fardadinho. Dona Cotinha não sei por que tinha este nome! A Cota era alta! E o Fardadinho foi ficando fraco. E as Galizesinhas também sentiam muita falta do Senhor Pompeu.

– Ai, ai como faz falta o Senhor Pompeu… Suspirava a Amarela perto da Pretinha.

– É verdade Amarela. Faz muita falta. Ele era louco por uma Pretinha! Mas também a gente sempre dava umas duas vezes pra ele – A Amarela, virou-se na hora prá Pretinha e com desprezo retrucou:

– Há há há. Faz me rir sua Macumbeira! Tá maluca! Ele adorava as Amarelinhas. Às vezes, quando nos alimentávamos melhor chegávamos a dar três!

 E esta lorota ia até chegar a umas seis e até sete, onde já se viu!!! Dona Cotinha não suportava mais isto. Estava ficando fraca também! Foi quando resolveu trazer novos Perus. Trouxe um casal. Eram Osvaldo e Perua. E aí eles foram recebidos assim como Vocês já sabem lá do começo da história. O que Vocês não sabem é que o Fardadinho demorou prá perceber que a Perua era uma perua e não um peru.

Quando Ele soube, gostou do que viu e foi logo se retratar com Osvaldo. Se deu mal… Osvaldo era Cabra bem criado. Tinha educação. Era temente à Deus! Não ia se prostituir assim fácil. Mas difícil ia acabar indo… Mas resistiu um pouco. Fez assim:

– Imagine só Fardadinho! Que pouca vergonha é esta?! Querendo conversa com minha Perua?! Não aceitamos este tipo de coisa em nosso perueiro (galinha – galinheiro / peru – perueiro). – E encerrou fazendo o nome do pai.

– Osvaldo, calma! Não é assim de graça. Tu não conheceste ainda as Galizetes! _ Este nome ele tirou da cartola na hora prá fazer um marketing. Tava na moda! E enquanto falava abria as cortinas do Galinheiro libertando as dezesseis Galizesinhas Matreiras. Umas Amarelas, outras Pretas, todas matreiras.

Osvaldo ficou duro! Estático! Sem palavras e duro o Peru foi se aproximando das Galizetes prá sentir o cheiro. Gostou. Voltou-se na hora para o Fardadinho. Dona Cotinha estava fraquinha, comendo sem proteína há dias. Passava horas por ali vendo seus Galizés e seus Perus, suspirando a falta d’Aquele Outro, Genésio e Pompeu. Percebeu algo diferente quando Osvaldo virou-se para o Fardadinho. Eles se falavam. Osvaldo parecia não acreditar:

– Escute aqui Fardadinho! Seria, Eu, Você, Perua e todas Galizetes só neste terreiro?

Este negócio é óbvio que Dona Cotinha não ouviu! Já viu gente ouvindo Peru? Mas Ela viu quando depois que o Peru gluglusou algo pro Fardadinho, ele baixou e levantou a cabeça como quem faz um sinal positivo. Nesta hora Osvaldo olhou de novo pro terreiro, gluglusou algo de novo que não deu prá registrar, fizeram algo que pareceu um cumprimento e correram para o Terreiro. A Perua já estava por ali se engraçando também com as Galizetes.

Vendo esta cena Dona Cotinha se emocionou. Enfim tudo voltaria a ser como era antes. Claro que faziam muita falta, Genésio e Aquele Outro com Pompeu, mas tinha ainda o Fardadinho de sempre, e agora Osvaldo que modéstia a parte era um grande Peru!

Dona Cotinha não come carne. Não mata seus bichos nem a pau! Morre tudo de velho a criação de lá. Tem uma vaca com quarenta e nove anos. Um porco com sessenta ou sessenta e um – ela sempre se confunde. Uma tartaruga que Ela ganhou do Avô quando nova e este dizia ser o bichinho de estimação de seu Bisavô. O Fardadinho tinha trinta e sete completos e em plena forma. Melhor agora que estava se entendendo com Osvaldo e Perua. Ele não aguentava mais comer galinhada.

Logo Dona Cotinha foi retomando a cor. Sentindo a falta de seus Perus perdidos, mas se recuperando com os novos. Sabe o que é? Na falta dos Perus, ficou só Fardadinho com as Galizesinhas. Estes bichos são assanhados por demais. Gostam mesmo é do negócio atrapalhado. Não sei se foi Pompeu, Genésio ou Aquele Outro que começou esta história. O fato é que ela está aí. E ficou! Quando estão só Eles não se animam. Não se aninham. Não botam. Daí as Galizesinhas não dão nem três, nem dois nem um ovo por dia. Com isto Dona Cotinha fica sem proteína.

Desde que se foram Pompeu com seus Perus, Dona Cotinha come mal.

Agora estavam lá, de novo. Fardadinho, Osvaldo com o cocuruto ainda abalado, Perua e as Galizetes se esbaldando. Dona Cotinha com o prato cheio de verdura e ovo olhava pela varanda no quintal e se deliciava pensando:

– Não sei o que é melhor, se o ovo de Perua com Galizé ou ovo de Galizé com Peru! Sei que não vivo sem isto!

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