Fabrício Maurício | Diários de Uma Bicicleta XIX – Sobre o "Curtir o que faz” e o "Amar o que faz"!
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Diários de Uma Bicicleta XIX – Sobre o "Curtir o que faz” e o "Amar o que faz"!

Diários de Uma Bicicleta XIX – Sobre o "Curtir o que faz” e o "Amar o que faz"!

Por Fabricio Mauricio em Trilhas diárias de uma Bicicleta 20 ago 2012

As trilhas e suas incontáveis surpresas. Esta foi chegando num ponto em que ficava muito estreita. Pedregosa. Parecia não querer ninguém por ali, ou guardar um tesouro para poucos. Os pneus doíam. Olhávamos para a trilha (estava até com a testa franzida) desviando em todas as direções e só o que encontrávamos eram pedras e buracos. Caíamos neles e Eles caiam na risada. As pedras eram mais brutas. Não riam. Quando mal tivemos chance de nos preparar a Trilha cai também! Uau! De repente um enorme declive. Agradeci a recente suspensão que ganhei. Levamos alguns instantes até chegar lá embaixo. Lá chegando fomos gentilmente recebidos por um grande descampado que bonachão, nos saudou com muita massa verde, terra vermelha e um conjunto enorme de enormes árvores. Todas muito saudáveis. Pareciam ter um Pai ou Mãe amorosa por perto. Os pastos muito verdes, apesar de curta estiagem alimentavam com fartura o gado branco e bem cuidado. Era cedo. O sol, apressado já estava por ali piscando de lado para nós.
Nesta hora meu Condutor não resistiu. Saiu de cima e foi caminhando me empurrando de lado. Ofereci um pouco de água. Ele claro aceitou. Bebeu e olhou para cima. Estava assustado. Mas estava mais maravilhado que assustado.
Logo uma poeira alta vermelha e gritos firmes certeiros. Uma grande quantidade de bois correndo agrupados sob o comando gentil daquele homem de chapéu amarelo. Paramos para admirar a cena. Ele parecia reconhecer os bois. Tão iguais aos nossos olhos, mesmo tamanho, mesma cor, e apesar disto gritava fraternamente seus nomes:
– Eia! Vamos Rufião! Mais prá cá Valente! Agrupa Cuitelo!
Com seu cavalo os cercando com um sorriso dando a volta olímpica em seu rosto ele fazia um manejo de curral com os bois. As madeiras dos currais eram incríveis. Fortes e coradas que eram pareciam ter grandes músculos suportando toda aquela estrutura tão bem talhada. Tudo era muito bem tratado.
Logo que a poeira cansou e resolveu se sentar, nos aproximamos daquele Vaqueiro. Fingi também estar curiosa. Obviamente Eu não iria perguntar nada. Era capaz de o Vaqueiro ter um desmaio na hora. Onde já se viu! Meu Querido Condutor perguntou por nós:
– Tudo aqui é tão bem cuidado. Parece uma terra de fantasia guardada por aquela hostil serra pedregosa que deixamos lá prá trás. Quem cuida de tudo isto aqui meu Senhor?
– Tudo aqui é cuidado por mim Filho. – Era um Senhor de uns sessenta e cinco anos, com a barba já de tão branca, e por ali há tanto tempo, começando a imitar a cor do chapéu. Uma expressão muito diferente da trilha que acabávamos de enfrentar. Era mansa. Gentil.
– Mas tudo isto? Tem muita terra por aqui. Pomar, pasto, criação. Só o Senhor? Até onde isto vai?
– Se continuar nesta estrada, daqui há alguns poucos quilômetros vai chegar a um risco d’água. Até lá eu que cuido.
Claro. Fomos. E gostamos do que vimos. A estrada era muito diferente daquela da trilha. Tinha canteiros. Porcos vivendo descentemente. Emas soltas em outro pasto. Galinhas vivendo em um canto que parecia um paraíso. Local bonito e cheio de atrações. Reunidas pareciam inteligentes. Era como se tivessem fugido de um galinheiro qualquer para aquele santuário…
Os tais poucos quilômetros mencionados por àquele afetuoso vaqueiro misturados há tanto detalhe meticulosamente tratado, nos entreteriam por praticamente o dia inteiro. Ao voltar pelo mesmo caminho encontramos de novo o mesmo homem agora acomodando a bicharada nos seus dormitórios. Tocava a boiada de volta ao curral. Estávamos maravilhados. O sol já com a vista cansada, fraca, disparava já sem forças seus últimos raios. Já estava de toca. Queria dormir um pouco. Aquele vaqueiro, não ainda.
– Que vivacidade! O Cabra é mais forte que o Sol! – estas palavras caíram secas no chão, da boca do meu Condutor. Estas se ergueram e foram até o Vaqueiro: – Tudo é muito lindo! Muito grande! Não são poucos quilômetros, são muitos! Passamos o dia conhecendo todo local! Como pode o Senhor com tanta idade, durante tantas horas seguidas, cuidar sozinho de tudo isto com tanto esmero?
Ele apeou de seu cavalo, tirou o amarelo chapéu que logo fez sua barba ficar branca de novo (era só o reflexo, não era amarela), limpou o suor da testa com um lenço amarelo clarinho cor de sol indo embora e pausadamente respondeu:
– Filho. Vivo nestas terras desde sempre. E desde sempre dediquei minha vida a este santuário. Faço tudo com todo amor que habita em meu coração. Alguns vizinhos eu tinha no passado. Foram deixando suas terras. Não amavam o que faziam. Por não amar, não cuidavam dos detalhes. Gostavam, simplesmente curtiam. A terra e os bichos, também exigem amor de verdade. Não vingavam em suas mãos. Não me dá trabalho. Me dá prazer – foi subindo em seu cavalo branco – Acho que é isto. Amo o que faço e por isto faço com prazer. Não olho pro relógio e tudo em minha volta parece o tempo todo agradecer-me pelo esmero com que os trato. Uma pena quando o corpo insiste, cansado, me puxando para cama e tenho que dormir. Até um dia! – e se foi. Com ele foi o sol que já estava impaciente aguardando esta conversa para juntos irem dormir. O Sol não ia sem Ele.
Quando já de noite chegamos lá em cima da serra, Eu com os pneus exaustos, meu condutor com sede e já sem água paramos na primeira venda para uma pausa. Ao que Ele puxa conversa e conta ao dono da venda o que tinha visto e como havia sido seu dia. Este perplexo com tanta fantasia se dirige ao meu condutor:
– Tem mesmo certeza de que estava nesta estrada? Tudo que temos depois da descida esburacada da serra é uma trilha estreita, não menos descuidada que vai dar em um pequeno ribeirão.
Ele não acreditou. Disse que voltaria no outro dia pela manhã. Não poderia ser! Eu fiquei bem quieta. Calada. Nada comentei. Deixei-o falando sozinho. Antes de ir olhei prá trás e dei uma piscadela para a trilha que sorriu marota prá mim. Há tempos (longe dele é claro) comentamos que Ele precisava encontrar o amor no que faz.
Mais um conto da saga publicado no último sábado dia 18/08/2012 no Jornal Diário da Manhã. Vejam lá como ficou:

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