Fabrício Maurício | O Espetinho
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O Espetinho

O Espetinho

Por Fabricio Mauricio em Gotas de Lágrimas 18 jul 2012
– Ou!
Nada…
– Ou! Falou mais alto o bandido. – Estou falando com Você! Isto é um assalto! Passa o espetinho!
Darcilene olhou prá trás sem entender muito bem aquele negócio e foi logo perguntando e escondendo seu espetinho:
– Como assim Cara? Tá maluco? Passa o espetinho? Que porra é esta?
– Tá maluca Você Mulher! Não está vendo que é um assalto? As – sal – to! Passa o espetinho!
– Velho que conversa é esta? Nunca vi isto, roubando um espetinho? Toma aqui, leva minha grana!
Tão confuso como Darcilene, o Rodolfo (nosso humilde ladrão), foi logo respondendo:
– Não quero sua grana, quero o espetinho!
Enquanto esta conversa não saia do lugar Darcilene no meio da discussão arrisca uma mordidela em um pedacinho da carne.
Meu Amigo, Você não pode imaginar como ficou a cara do Rodolfo! O Cara ficou possesso, avançou um passo e foi logo gritando com sua faquinha de pão em punho:
– Sua vadia dos infernos, vou ter que te furar! Deixa de comer meu espetinho!
– Seu espetinho o escambal! Este espetinho é meu e ninguém tasca! Faz o seguinte, já que tu não queres minha grana, vamos logo ali naquela outra rua que é mais escura, você me dá um trato, fica tudo bem, e vou embora com meu espetinho.
Lá por estas tantas Rodolfo já estava vermelho como um pimentão de raiva, sem acreditar no quanto àquela mulher o desafiava e resistia daquela maneira a entregar o espetinho.
Ela por sua vez não menos fula com a situação. Darcilene era uma daquelas poucas e raras que vão para os botecos para comer espetinho e beber cerveja, diferente da maioria que sai para beber cerveja e comer espetinho. E como a atração é sempre a cerveja o pobre espetinho não invariavelmente é sempre tratado com menos cuidado em todos os bares. Geralmente eram secos, duros e nada suculentos. Não aquele, daquele dia!
Quando Darcilene viu aquele espetinho vindo da churrasqueira, fofo, com cara de macio, nem marrom, nem preto, nem vermelho, era de todas estas cores juntas, com cada lapa de pedaço que mais pareciam umas orelhas gordas, suando ou babando ou escorrendo não se sabe ao certo, mas com aparência de muito, muito suculento, seus olhos começaram a brilhar!
Ela nem encerrou a conta, só deixou seu espetinho pago com sua amiga que a acompanhava e saiu caminhando lentamente pelas ruas e apreciando aquela iguaria, dando pequenos pedaços para não acabar e mastigando como mandam os dentistas, só para poder ficar mais tempo sentindo aquele inédito sabor. E de repente é abordada por um esfomeado qualquer que se contentaria muito bem com qualquer espetinho seco por aí, querendo levar justamente o seu suculento espetinho!?!
Não se podia mais identificar quem era o mais intrigado e irado e ninguém cedia, e nesta com a discussão a cada minuto mais acalorada, Darcilene dando mordidelas no espeto e deixando Rodolfo em fúria, e percebendo que a cada momento da discussão secava seu espetinho, ficava mais brava ainda que Rodolfo, acabaram por se atracar!
Rodolfo partiu pra cima investindo com sua inofensiva faca sem ponta, e Darcilene se esquivou contragolpeando com seu espetinho bem na barriga do larápio!
Sorte a dela já ter comido uns quatro pedaços de carne, já que o espeto entrou o suficiente para assustar o meliante sem afetar o restinho.
Vendo-o caído no chão com seu espetinho fincado em sua pança, Darcilene não titubeou! Empunhou novamente a sua arma, ou melhor, espetinho, e como um cavaleiro errante retirando sua espada de solo sagrado, puxou seu espetinho e saiu em inabalada carreira sem deixar nenhum só pedacinho pro pobre Rodolfo que teve que dormir com a barriga literalmente varada de fome!

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