Fabrício Maurício | Diários de uma Bicicleta 13 – Sobre Superstições, Medos “e se”…
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Diários de uma Bicicleta 13 – Sobre Superstições, Medos “e se”…

Diários de uma Bicicleta 13 – Sobre Superstições, Medos “e se”…

Por Fabricio Mauricio em Trilhas diárias de uma Bicicleta 09 jul 2012

Lembrando o já dito no primeiro conto desta saga, a natureza não tolera a preguiça. Tudo que foi criado e paira sobre a terra deve ter uma função e uma vez não cumprido o propósito que originou a necessidade de sua existência o objeto morre. O ferro se não aplicado em alguma coisa e tratado, com o tempo vai enferrujar, o leite extraído se não bebido vai azedar, o pneu da bicicleta que não roda há mais de dois meses já murchou, e minha perna direita em apenas quinze dias sem pisar após a cirurgia está quatro centímetros mais fina que a outra e o joelho duro como um fêmur. O que perdi em quinze dias vou levar mais de três meses para recuperar e estou empenhado. Empenhando mas com medo!

Como a recomendação médica é de ficar pelo menos uns três meses sem pedalar, fiquei quieto. Ocorre que este prazo está passando, e em breve poderei voltar às trilhas. Então dia destes resolvi ensaiar alguns contatos com minha bike. Pra minha surpresa e preocupação, quando subi nela empunhei seu guidom e olhei pra frente fiquei enregelado! Logo fui dominado por incontroláveis e incontáveis pensamentos que se cruzaram, sobrepondo-se uns sobre os outros como se disputassem espaço para chamar minha atenção, querendo cada um mostrar que era mais importante que o outro:

– E se eu cair de novo?

– E se não conseguir me equilibrar?

– E se esta cirurgia ainda não estiver firme?

– E se Eu tiver que passar por tudo isto de novo?

– E se, e se, e se?…

Medo! Senti um medo indomável que literalmente me fez cair. Claro, estava parado e como já sabemos (Vide Diários XII) só encontramos equilíbrio em movimento. Mas como estava parado não sofri nenhuma escoriação, só mais medo… Um medo tão volumoso que quase podia apalpá-lo e com medo disto ele foi mais rápido, ficou maior, se deitou sobre meu corpo e começou a me sufocar. Num acesso de pânico comecei a gritar e me debater até que minha esposa assustada com aquilo veio até mim e começou a me afagar. Ficou ali sussurrando baixinho em meus ouvidos que tudo não passava de fantasias, ilusões, pedindo que eu me acalmasse. Aos poucos fui voltando e completamente ressudado consegui visualizar o medo se esvaindo, virando uma espécie de fumaça e lentamente desaparecendo. Ainda um pouco assombrado com tudo aquilo, com o apoio dela me levantei, me afastei e fiquei ali de longe sentado na varanda olhando para minha magrela e tentando entender o que havia acontecido.

O que é o medo? Claro que aquela visão não foi algo real. O que seria então?

Medos são ilusões. Mas uma ilusão tão poderosa que é capaz de refreá-lo e impedi-lo de chegar onde quer que seja ou pretenda. Não passa de um estado de espírito. Se estiveres bem, tem mais coragem, se mal sente medo… Definitivamente não é real! Quantas vezes com medo de realizar alguma coisa você se deparou com tantos “e se”, com tantas superstições buscando um acalanto ou um canto pra ficar inerte e depois, quando um sopro de bravura o toca, Você vai lá e faz e descobre que a experiência nem de longe se parecia com todo aquele devaneio. Tudo se mostra muito mais factível quando a mágica do por a mão na massa e ir em frente nos encobre.

Em inglês medo significa fear e pode ser descrito como Falsas Evidências Aparentemente Reais. Naquela hora em cima da minha bicicleta, fiquei tão fixado na possibilidade de todos aqueles “e se” acontecerem que eles simplesmente se transformaram em algo quase real!

Decidi então trocar esta pergunta única e sem resposta (“e se”) por uma sentença que obrigatoriamente deve ser completada por outra: “e então quando” “eu vou”. Experimente trocar nas questões acima, construa suas novas respostas e verá o quanto soa melhor, mais entusiástico!

É típico dos pessimistas generalizarem os fatos, por isto preferem as perguntas do tipo “e se”. Porque algo deu errado agora, sempre vai dar errado e de tanto dar errado acaba virando uma superstição. Certo dia alguém passou por debaixo de uma escada (e vamos combinar que não é nada seguro passar por debaixo de uma escada!), um acidente aconteceu, depois outro e de novo mais outro. Pronto! Está estabelecida a relação: passar debaixo de escada acontece coisa ruim, dá azar!

Levantei da cadeira, pisei duro com a perna ainda atrofiada, olhei tão firme e confiante para minha negona, que acreditem! Sozinha Ela se levantou e parecia que me fitava, apesar de obviamente não ter olhos. Caminhei até Ela e novamente a montei. Ambos sabíamos que não seria ainda naquele momento o nosso retorno às trilhas, mas já era um ótimo começo, um grande reencontro. Nesta hora ouvi uma voz que inabalável falou comigo:

– Apesar de ter rodas e não asas juntos ainda vamos alçar voos muito altos! Sonhe grande, não se permita a nada menor do que aquilo que desejar! Fale grosso com seu medo, pois ele é muito mais frágil do que se apresenta, por isto ele te testa a todo o momento. No final das contas o medo, morre de medo e é incapaz de te dominar a menos que Você dê esta licença a ele. Você não deve autorizar que ele desenhe os seus caminhos ditando seu futuro. Encontre suas aspirações, escolha seus sonhos, decida que vida quer levar “e então quando” descobrir esta trilha “eu vou” estar sempre a seu lado te apoiando a sempre ir em frente!

Com força e carinho apertei seu punho e por ali fiquei um bom tempo, só ouvindo, só sentindo e escolhendo acreditar em tudo que é intrépido!
Publicado no Jornal Diário da Manhã no dia 07/07/2012:
  • José Augusto 9 de julho de 2012 at 22:13 / Responder

    “Não tenha medo!, Medo de quê? Nossa vida é eterna, nosso eu que é nossa alma, não morre nunca. A vida continua eternamente. Procure sentir Deus palpitando dentro de si, na vida em que pulsa seu coração, nos pensamentos que povoam seu cérebro. Não tenha medo, pq Deus está permanentemente dentro de vc. Siga seu caminho confiante e sereno, e descobrirá Deus em tudo.”
    Pastorino, C.T. Minutos de Sabedoria – Pág. 136
    Grande abraço meu mestre!!!
    Deus te abençoe!!

  • fabricioliver 10 de julho de 2012 at 14:48 / Responder

    Sempre oportunos os seus comentários Meu Nobre Amigo. Obrigado de novo!

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