Fabrício Maurício | Diários de uma Bicicleta IX – Sobre cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima!
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Diários de uma Bicicleta IX – Sobre cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima!

Diários de uma Bicicleta IX – Sobre cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima!

Por Fabricio Mauricio em Trilhas diárias de uma Bicicleta 07 jun 2012
Você já caiu? Levantou-se ou ficou ali no chão lamentando as injustiças do mundo? Que alguém nunca caiu eu duvido. Acredito verdadeiramente que ambas as situações (levantar-se ou lamentar), já foram vividas por muitos. O problema não é cair, é conseguir levantar. O fato é que nunca ouvi falar, por exemplo, de alguém que com ambas as pernas sãs não aprendeu a andar, por ter desistido de tentar em função de ter caído muito… Sabe por quê? Nesta fase inicial da vida, acreditamos em tudo, e vamos a fundo nas questões a que nos propomos, até conseguir. Com o passar dos anos, vamos nos cansando dos tombos e dos nãos e nos entregando mais facilmente.

Cada um pode escolher. Se for levantar bastam umas sacudidelas para que a poeira saia de Você. Pequenas manchas vão ficar, e isto é bom para que nunca se esqueça de que caiu e se levantou o que contribui muito com as novas escolhas, além de te tornar mais forte. Se for ficar caído, chorando e culpando os outros por seu vacilo, é importante saber que suas lágrimas, vão transformar a simples poeira em um mar de lama que muito em breve vai te devorar, te afogando em seus lamentos.

A minha solidão a quatro quando pedalo (Eu, minha bicicleta, meus pensamentos e a natureza) é o momento que me inspiro a escrever os Diários. Alguns carinhosos amigos que me leem me perguntaram quando de meu acidente: “E agora, como vai continuar o Diário? Não tem bicicleta não tem Diário!”.

De fato, esta poderia ter sido uma escolha, entretanto escolhi continuar. Escolhi me levantar (mesmo que ainda com uma só perna) e seguir adiante. Tenho sido testado em meus mais rigorosos limites. Sempre fui muito acelerado, e agora forçado a um ritmo diferente, tenho oscilado constantemente entre os lamentos e o levantar. Num destes momentos de lamento, me pus a recordar dos vários tombos que já levei. Como meus limites sempre foram de fazer qualquer Mãe se descabelar, não foram raros os sustos que proporcionei a todos.

Lembro-me do primeiro, quando ainda não me equilibrava direito, não tinha o controle da velocidade e nem tampouco dos manetes do freio. Pedalando em cima de uma calçada de longe vi uma árvore, mas muito inábil ainda, sem recursos para me desviar, só firmei e esperei a pancada. Foi de frente, e todos os meus dentes se abalaram. No outro dia estava lá de novo na mesma calçada e com os dentes moles, na mesma animação de aprender a andar de bicicleta.

Teve outra vez que fazendo estripulias em um buraco destes bem grandes de construções (usávamos muito estes ambientes como rampas para saltar), me atrevi a um salto com giro de 180º e antes do giro se completar, já estava no chão. Neste bati a cabeça e desmaiei. Os amigos ficaram em pânico, pensaram em chamar a ambulância. Mas em alguns segundos me levantei e ainda voltei pedalando prá casa.

Quando fui vice-campeão Goiano de bicicross, treinava e corria numa bela pista que existia em frente ao Shopping Flamboyant. Lá tinha duas rampas dublês (dublês são duas rampas que se complementam, onde o atleta salta de uma e cai em outra que fica a certa distância desta), uma menor que todos saltavam, e outra maior que só as categorias mais avançadas dominavam. Não quis esperar… Treinei muito nesta, pois não saltá-la roubava um tempo precioso, pois tínhamos que reduzir a velocidade para passar sobre ela e sabia que se a dominasse, poderia me distanciar dos meus concorrentes. Nesta cai muitas vezes, com destaque especial para uma vez em que tive uma lesão muscular na mesma perna doente de hoje, e fiquei muitos dias mancando. Tão logo me recuperei, adivinhem! Lá estava Eu, colocando em prática, tudo que havia aprendido com aquele tombo, saltando ainda mais alto.

Mais recentemente, o episódio onde novamente cai em uma trilha e desmaiei tendo um sonho incrível (vejam Diários de uma Bicicleta II e III – honestamente ainda não sei se foi sonho ou o que foi…), e agora este que culminou nesta cirurgia.

Neste intervalo foram vários e incontáveis tombos. A reação inicial é sempre de lamento, mas meus lutos duram pouco e logo procuro alternativas para levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Relatei aqui algumas quedas de bicicleta, prá não falar dos verdadeiros baques que já levei da vida. Sabem estes tropeços que esfolam sua fé, arranham sua autoestima, quebram suas esperanças, cortam sua segurança ao meio, rompem com seus sonhos, e te mortifica vivo? Pois é, tive vários também… Escolhas erradas, empregos perdidos, projetos de vida se esmigalhando em minha frente, sonhos de empresas sendo arremessados pela janela, desejos nobres sendo desconsiderados… A eterna Batalha Interior!

Em todas estas situações, só me restavam duas alternativas: aceitar os infortúnios da vida e me entregar e lamentar, ou admitir que a vida é cheia de infortúnios mesmo e continuar lutando. Em ambos os casos as lágrimas vão cair, a diferença é que quando me prostro, ela se junta à poeira e empoça, vira lama. Quando me levanto, a lágrima também cai (afinal quem falou que é fácil?), mas a cada novo passo dado ela se mistura com a poeira que é pisoteada por mim tornando este solo cada vez mais compactado e firme para seguir minha trilha!
Publicado no Jornal Diário da Manhã em 07 de Junho de 2012. Vejam:

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